poucos e bons

aos poucos você percebe que ter muitos amigos te faz alguém raso. você não alcança a profundidade, o amor, a intimidade e a confiança base de uma amizade. você alcança sorrisos, elogios banais, afinidades efêmeras, copos de bebidas e deslumbres da noite.
sempre desconfiei dos populares. os que não sabem ser chatos. que sorriem o tempo todo e tem lábia pra tirar da cartola qualquer assunto mesmo que dominando superficialmente.
ter poucos amigos te faz ter tempo pra dedicar-se inteiramente a um, dois, três. a compartilhar segredos que permanecerão sendo segredos.
e a coisa mais importante, te ensina a ser feliz vendo o outro sendo feliz!

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aos trinta

o cheiro de café começa a aparecer. a cafeteira já esta cheia e encho minha caneca dos rolling stones. ligo a vitrola e um folk delicioso do bob dylan invade minha manhã. parece que os cheiros hoje em dia tem textura e a musica tem cores. pode parecer besteira mas ando meio neurótica com esse negocio de sonhos. tenho uma linha mais freudiana nos meus pensamentos de psicanalise e sempre tento interpretar os sonhos que me fazem acordar com fadiga. geralmente esses sonhos de bagagens pesadas que não me deixam muitas vezes viver o presente. uma ramificação de pesadelos com imagens em jpg e lembranças de antigos amores com cpf e rg.
meus vinte e poucos viraram trinta e eu nem vi. a ideologia que carregava fervorosamente quando mais jovem ainda tem um certo vigor. e agora quando dizem ”os jovens são o futuro do mundo” eu só vejo bobagens nessa frase… os jovens nem mesmo sabem votar. nem viveram 1/3 da vida de uma pessoa que carrega uma lembrança politica bem concretizada. eles acham que sabem tudo e eu ando achando que não sei de nada.
de certa forma esse numero me trouxe uma maturidade que precisei assumir na marra. entendo que os boletos precisam ser pagos em dia e que os empréstimos que pedimos aos pais nem sempre podem ser pagos. entendo que só seguimos em frente porque tem chão e nada mais. aceitei que os tablets podem tomar o lugar dos livros e que em uma distancia curta eu posso trocar o conforto do meu carro por um pouco de bicicleta e ar livre. admito que reluto mais em mudar de opinião conforme o tempo passa e que aquela frase chata de que ”no meu tempo” passa pela cabeça do ser humano inconscientemente. porque nos tempos passados os celulares duravam, as crianças se sujavam e que os casais genuinamente se amavam.
também vi o mundo acreditando que o apocalipse chegaria em 2000, não chegou. vi novamente o mundo acreditar que o apocalipse chegaria em 2012, não chegou. disso só conclui que o mundo esta tão farto que ele mesmo torce pra acabar. e acaba… num filme de Hollywood – com investimentos absurdos e bilheterias estrondosas.
não morri por amor. um dia de analise viraram dez anos. o emprego dos sonhos também pode ser frustrante. amizades verdadeiras acabam. futilidades viram necessidades conforme a importância que se da a elas. a ruga do sorriso é a primeira a chegar. e que pra escrever poesias é mais difícil a cada ano.
e sabe, mesmo torta e estranha. mesmo não sabendo mais fazer poses pra foto. mesmo não tendo animação pra sair a noite. mesmo desistindo da meditação. eu me sinto completa e plena. nem feliz nem triste.
aprendi a distanciar os sentimentos do meu equilíbrio emocional e viver em paz dentro de mim.

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falecer

ela levanta como quem não quer levantar. sabe que é hora de tomar banho e trocar o moletom. dar comida para o gato alf e ler um capítulo de “ninguém me verás chorar”.
a casa está vazia como a geladeira. tão vazia que nem a presença dela e do alf eram vivas, não passavam de insignificantes espectros.
não pagava aluguel pois herdou a casa de seu avô a uns anos atrás, depois de perder o velho para a cirrose. boletos que baseavam apenas em conta de luz e água – televisão não tinha e achava internet lugar de quem não tem jornal ou livros em casa.
ultimamente não queria ver nem seu namorado. pensa que ela pode contagia-lo com esse humor depressivo e de uma infindável tristeza.
não queria uma traição explícita porém, jamais julgaria uma rapariga que o satisfizesse. aquele ditado dos olhos e do coração… “O que os olhos… bla, bla, bla”.
por um tempo gostou de pintar. outro de dançar. e hoje, não gostava nem dela quem dirá de algo.
ela tinha talento pra sofrer, chorar e desfalecer de desespero. isso não gera emprego nem é algo que as pessoas aceitam. ninguém gosta de pessoas tristes. ninguém gosta de pessoas que vivem sem ver o sol. logo, nunca conseguiu manter as amizades que fez ao longo da vida.

ela é a metamorfose…
não a de raul.
ela é a metamorfose do kafka.
um verme sujo.

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(imagem weheartit)

cristianismo

ela pensa que presença de deus imposta pelo cristianismo é absurda. passou seus anos de escola em colégio católico. aprendeu a gostar de jesus pelo personagem que é, humilde e um disseminador de esclarecimento. alias, amava a bíblia como livro. um livro incrível com mais de 40 autores.
só que com os anos passando e com seus vinte e tantos pesando. ela já passando por situação tão absurdas que jamais iria para um julgamento final.
imaginar saber que deus sabe todos os pensamentos, obscenidades, vulgaridade e erotismo emporcalhado sentiria vergonha imensa.
a criação no catolicismo foi muito boa. lá teve contatos diretos e ensinamentos importantes. todo aquele conhecimento sempre foi importante para que solidasse mais o que pensava.
no presente ela pensa que os atos bondosos das igrejas são todos bem vindos. as doações. os eventos para a comunidade, refeição coletiva, e tantos mais…
o que dói é ter que inventar um pão de circo imenso pra ajudar o próximo?
por que apenas não ajudar?
por que tanto medo de não crer em deus nos dias atuais?

(adeus é tão complexo que pensamentos não concluem)

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(imagem weheartit)

trepada

ele chama uma prostituta pra despertar os ânimos. chega uma jovem de corpo esbelto, seios fartos, cabelos loiros compridos e com um rosto de 40 e na verdade devia acabar de fazer seus 30. estava acabada, pobre mulher.
no casa velha e fétida dele encontrava-se algumas tralhas e cadeiras com peso de roupas.
ele é um velho que só bebe, resmungava e da umas trepadinhas por aí. quase certo que essas trepadas vinham de noites longas atrás de tragos e tragos de bebida no botequim de esquina com o puteiro.
já tinha lá seus quarenta anos e podia dar o luxo de contratar uma puta feia porem,cheirosa. não com aquele azedume. com o cheiro forte entre as pernas. de cheiro ruim já basta o cheiro de cigarro misturado com bolor da casa feita no começo do século XX. a casa também tem um pó que sobe e traz sinusite. odiava aquele tapete da sala por não ter aspirador. quando era casado a mulher convenceu ele a comprar. de nada adianta aquele tapete feio. só pra embebedar mais e mais e chegar até a fossa mais fedorenta e profunda onde os sentimentos não são ouvidos, os sentimentos sucumbem pelo fedor pois, só sente os sentidos (do olfato principalmente) nessa mistura de embriaguez e odor.
ele oferece um vinho e ela cordialmente recusa e aceita os petiscos. nada muito prolongado.
logo ele pegou ela e a levou pra sacada e onde rudemente abaixou a saia dela e meteu a seco.como ela é pra ele, uma puta.
depois deu uns trocados amassados pra ela e ela saiu sem se limpar.
assim, bem descartável mesmo.

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(imagem weheartit)

ei,

você entende que eu te amo, mesmo?
meu coração enche de alegria.
a vida com você é mais leve e fácil.
multiplicamos ideias.
sonhamos.
tentamos.
não realizamos.
tentamos de novo.
não realizamos.
frustramos juntos.
sonhamos novamente
tentamos.
realizamos.

você entende né?
esse sentimento.

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(imagem weheartit)

ônibus

ela entra no ônibus. passa a catraca. ela esta exausta demais pra procurar um acento por isso senta no primeiro que capta seu ponto de vista. no banco, mexe na mochila. procura um exemplar de memórias do subsolo de Dostoiévski. quando olha sentido a janela em relapso fica sem graça e desvia o olhar. tem um rapaz perversamente lindo sentado do seu lado. ela não sabe se ele a via pois, ele esta em outra dimensão com fones de ouvido.

ela aproveita esse sentimento inesperado e fica pra contemplar o amor. esperando.
que o amor haja agora ou morra no ponto de chegada.

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(imagem weheartit)

o depois

a noite, ela busca conforto no silencio.
não é mais par e quando virou impar, não sabia ser.
ela esqueceu como ela era antes do ultimo relacionamento.
o antigo amado diminuiu tanto o ”eu” dela que nada sobrou.
depois de um ano tinham várias fotos e depois de cinco apenas duas – isso que uma era do cruzeiro que fizeram no final do ano.

depois de abusos e laços destrutivos ela só quer paz.
quer entrar no eixo, no centro.
relembrar o que antes dele, fazia-a sorrir.

sabes que não é bar ou balada.
sabes que não queres parecer por ai radiante de felicidade pois, só de tristezas ela vive no momento.

ela só vai acalmar e silenciar,
pra quem sabe num amanhã
dela,
ela relembrar.

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(imagem weheartit)

sonho quieto

sonhei que o mundo era puro
que não existiam ruas e becos soturnos
no lugar existia campos que dava pra ver bem a lua.
sonhei que os nossos vícios eram outros
que refrigerante não existia
nem televisão, jornal e revista.
sonhei que as decisões eram leves
que a rotina não tinha peso
e que a palavra problema era utopia.

sonhei que ninguém morria
porque quando um coração para
parte outros tantos corações.

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(imagem weheartit)